Que fazer se o meu tempo é tempo de razão?
Se o relógio me impede de sentir
De estar desatenta
Se às sete tenho de saltar do sonho para a condução
E da poesia para o asfalto.
Que fazer se as depressões não resultam em poemas?
E sim em bulas e divãs
Se as lágrimas são objeto de estudo
E as canetas, seringas.
Que fazer se as poesias não são nem sequer lidas?
Se os poetas esvaziam seus blocos dos bolsos
Jogam fora as dores
As paixões
Anestesiam-se.
Que faria eu, se escrevesse um poema?
Sentiria tudo de novo?
Ou escreveria sobre o que me impede de sentir?
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
A estratégia
O urubu sobrevoa a carniça.
O cheiro fétido penetra em
seus sentidos, já podres.
Quanto mais sujo,
estragado, sórdido, obsceno,
Mais suculenta é a caçada.
A estratégia é, então,
cuidadosamente traçada
E o mergulho, absurdamente
preciso
Do pacto, do compromisso.
Nem baratas, nem ratos, nem
bichos escrotos
Ao som da infausta e
pavorosa batida
A estratégia é mergulhar na
carne
No sangue velho e
apodrecido
E arrancar dele
Tudo o que um dia já foi
vida.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
sábado, 18 de agosto de 2012
Para arquivar: Essa conversa não é sobre você
Querido estudante branco, de classe média, que faz cursinho pré-vestibular particular: eu sei que é difícil quando alguém nos faz enxergar nossos próprios privilégios, mas deixa eu tentar mais uma vez.
Eu (e mais uma penca de gente, me arrisco a dizer) não me importo com o quão “difícil” será para você entrar naquele curso de medicina mega concorrido com o qual você sonha, porque, simplesmente, esta conversa não é sobre você.
Eu sei que praticamente todas as conversas deste mundo são sobre você e você está acostumado com isso, então deve ser um baque não ser o centro das atenções. Mas, seja forte! É verdade: nós não estamos falando sobre você.
Quando você chora pelo sonho que agora parece mais distante de se realizar, suas lágrimas não me comovem. Porque o que me comove são as lágrimas daqueles que nascem e crescem sem qualquer perspectiva para alimentar o mesmo sonho que você. É sobre essas pessoas que estamos falando e não sobre você.
Quando você esperneia pelos mil reais gastos todos os meses com a mensalidade do seu cursinho e que agora se revelam “inúteis”, eu não me comovo. Porque o que me comove são as milhares de famílias inteiras que se sustentam durante um mês com metade da quantia gasta em uma dessas mensalidades. É sobre essas pessoas que estamos falando, não sobre você.
Quando você argumenta que, na verdade, seus pais só pagam seu cursinho porque trabalham muito ou porque você ganhou um desconto pelas boas notas que tira, eu não me comovo. Porque o que me comove são as pessoas realmente pobres, que mesmo trabalhando muito mais do que os seus pais, ainda assim não podem dispor de dinheiro nem para comprar material escolar para os filhos, quem dirá uma mensalidade escolar por mais barata que seja. É sobre essas pessoas que estamos falando, não sobre você.
Quando você muito benevolente até admite que alunos pobres tenham alguma vantagem, mas acredita ser racismo conceder cotas para negros ou outros grupos étnicos eusa até os dois negros que você conhecem que conseguiram entrar numa universidade pública sem as cotas, como exemplo de que a questão é puramente econômica e não racial, eu não me comovo. Na verdade, eu sinto uma leve vontade de desistir da raça humana, eu confesso, mas só para manter o estilo do texto eu preciso dizer que o que me comove é olhar para o restante da sala de aula onde esses dois negros que você citou estudam e ver que os outros 48 alunos são brancos. E olhar para as estatísticas que mostram a composição étnica da população brasileira e contatar a abissal diferença dos números. É sobre os negros que não estão nas universidades que estamos falando, não sobre você ou seus amigos.
Se a coisa está tão ruim, que tal propormos uma coisa: troque de lugar com algum aluno de escola pública. Já que não é possível trocar a cor da sua pele, pague, pelo menos, a mensalidade para que ele estude na sua escola e se mude para a dele. Ou, seja a cobaia da sua própria teoria. Já que você acredita que a única ação que deveria ser proposta é melhorar a educação básica: peça para o seu pai investir o dinheiro dele em alguma escola, entre nela gratuitamente junto com alguns outros alunos, estude nela durante 12 anos e então volte a tentar o vestibular. Ah, você não pode esperar tanto tempo? Então, porque os negros e pobres podem esperar até mais, já que todos sabemos que o problema da má qualidade da educação básica no Brasil não é algo que pode ser resolvido de ontem pra hoje?
Então, por favor, reconheça o seu privilégio branco e classe média e tire ele do caminho, porque essa conversa não é sobre você. Já existem espaços demais no mundo que têm a sua figura como estrela principal, já passou da hora de mais alguém nesse mundo brilhar.
Eu (e mais uma penca de gente, me arrisco a dizer) não me importo com o quão “difícil” será para você entrar naquele curso de medicina mega concorrido com o qual você sonha, porque, simplesmente, esta conversa não é sobre você.
Eu sei que praticamente todas as conversas deste mundo são sobre você e você está acostumado com isso, então deve ser um baque não ser o centro das atenções. Mas, seja forte! É verdade: nós não estamos falando sobre você.
Quando você chora pelo sonho que agora parece mais distante de se realizar, suas lágrimas não me comovem. Porque o que me comove são as lágrimas daqueles que nascem e crescem sem qualquer perspectiva para alimentar o mesmo sonho que você. É sobre essas pessoas que estamos falando e não sobre você.
Quando você esperneia pelos mil reais gastos todos os meses com a mensalidade do seu cursinho e que agora se revelam “inúteis”, eu não me comovo. Porque o que me comove são as milhares de famílias inteiras que se sustentam durante um mês com metade da quantia gasta em uma dessas mensalidades. É sobre essas pessoas que estamos falando, não sobre você.
Quando você argumenta que, na verdade, seus pais só pagam seu cursinho porque trabalham muito ou porque você ganhou um desconto pelas boas notas que tira, eu não me comovo. Porque o que me comove são as pessoas realmente pobres, que mesmo trabalhando muito mais do que os seus pais, ainda assim não podem dispor de dinheiro nem para comprar material escolar para os filhos, quem dirá uma mensalidade escolar por mais barata que seja. É sobre essas pessoas que estamos falando, não sobre você.
Quando você muito benevolente até admite que alunos pobres tenham alguma vantagem, mas acredita ser racismo conceder cotas para negros ou outros grupos étnicos eusa até os dois negros que você conhecem que conseguiram entrar numa universidade pública sem as cotas, como exemplo de que a questão é puramente econômica e não racial, eu não me comovo. Na verdade, eu sinto uma leve vontade de desistir da raça humana, eu confesso, mas só para manter o estilo do texto eu preciso dizer que o que me comove é olhar para o restante da sala de aula onde esses dois negros que você citou estudam e ver que os outros 48 alunos são brancos. E olhar para as estatísticas que mostram a composição étnica da população brasileira e contatar a abissal diferença dos números. É sobre os negros que não estão nas universidades que estamos falando, não sobre você ou seus amigos.
Se a coisa está tão ruim, que tal propormos uma coisa: troque de lugar com algum aluno de escola pública. Já que não é possível trocar a cor da sua pele, pague, pelo menos, a mensalidade para que ele estude na sua escola e se mude para a dele. Ou, seja a cobaia da sua própria teoria. Já que você acredita que a única ação que deveria ser proposta é melhorar a educação básica: peça para o seu pai investir o dinheiro dele em alguma escola, entre nela gratuitamente junto com alguns outros alunos, estude nela durante 12 anos e então volte a tentar o vestibular. Ah, você não pode esperar tanto tempo? Então, porque os negros e pobres podem esperar até mais, já que todos sabemos que o problema da má qualidade da educação básica no Brasil não é algo que pode ser resolvido de ontem pra hoje?
Então, por favor, reconheça o seu privilégio branco e classe média e tire ele do caminho, porque essa conversa não é sobre você. Já existem espaços demais no mundo que têm a sua figura como estrela principal, já passou da hora de mais alguém nesse mundo brilhar.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
[o que o barro quer]
o barro
toma a forma
que você quiser
você nem sabe
estar fazendo apenas
o que o barro quer
[Leminski]
toma a forma
que você quiser
você nem sabe
estar fazendo apenas
o que o barro quer
[Leminski]
domingo, 15 de julho de 2012
"Dentro de uma sociedade, assim como os discursos, as memórias são controladas e negociadas entre diferentes grupos e diferentes sistemas de poder. Ainda que não possam ser confundidas com a "verdade", as memórias têm valor social de "verdade" e podem ser difundidas e reproduzidas como se fossem "a verdade"
[Teun A. van Dijk]
sábado, 14 de julho de 2012
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| Caravaggio - "Davi com a cabeça de Golias" |
Um gigante monstruoso, de faces abomináveis, herói dos filisteus e maldoso em sua essência desumana.
Golias, o grande monstro de quase três metros, com faces grotescas e risada aterrorizante.
Morto, por uma pedrada simples e precisa, por quem estava praticamente desarmado, por alguém que julgava-se munido apenas de fé.
Não obstante seu escudo forte e sua lança afiada, Golias sucumbe, e sua cabeça é levada à Jerusalém.
Como compreender a intenção de Caravaggio, ao representar sua própria face na imagem de Golias, o monstruoso gigante?
A própria face, numa expressão perversamente barroca, distorcida e enfatizada pelo jogo de luz e sombra, chiaroscuro, hipnotizante, dramaticamente representada em uma expressão de perversidade e rendição. Ele, ele próprio, em um auto-retrato de seu próprio espírito. Expondo-se em sua mais clara e límpida representação.
Uma existência conflituosa, emaranhada em sentimentos confusos e intranscritíveis. Possivelmente, apenas representáveis em uma arte essencialmente desfigurante, conceitualmente torta, barroca. Uma arte encomendada para emoldurar as mais sacramentadas catedrais. Elaborada, no entanto, através de um realismo brutal e pouco celestial.
Caravaggio utilizava-se de rostos comuns, encontrados nas praças, nas ruas, nos prostíbulos, para representar seus anjos e madonas. Maria, mãe de Cristo, tinha a face de qualquer prostituta. Os anjos, de qualquer pequeno mendigo. E ele, ele próprio, a face de um monstro.
A complexa impureza do barroco, seu jogo de claro-escuro, sua deformidade e pretenso realismo. A representação mais clara de si mesmo, de seu espírito e sua essência, numa imagem assombrada de quem conseguiu finalmente definir-se.
Do seu próprio modo.
Do seu próprio modo.
terça-feira, 3 de julho de 2012
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