domingo, 21 de julho de 2013

as mais pequeninas coisas
são capazes
de fornecer o mais grandioso sentido ao que a gente vive.
e será apenas agarrando estes milésimos de segundo,
em que se passam os acontecimentos pequeninos,
que será possível
costurar,
lentamente,
uma existência livre.


domingo, 7 de julho de 2013

mãe solteira
não devia carregar sozinha
a trouxa das verdades.
devia poder andar leve
sem o fardo inútil dos estigmas
que lhe impedem
de ser mãe sem adjetivos.

terça-feira, 2 de julho de 2013

passarinhos na janela
amantes sob os pingos da chuva
uma gota sobre ela
ele enxuga.
fugindo do molhado,
as penas respingando
eles ficam lado a lado
se amando.
e eu fico aqui pensando:
parece que a natureza insiste,
mesmo a gente relutando,
em mostrar que algo de amor
existe.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

domingo, 23 de junho de 2013

Há mestres, caros alunos,
messiânicos.
Que, no afã de educar para algo,
Educam para si mesmos
E para seus anseios
Em prol de uma educação restrita
Em que se acredita estar aprendendo
a pensar
Mas não se pensa estar apenas
acreditando.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Que fazer se o meu tempo é tempo de razão?
Se o relógio me impede de sentir
De estar desatenta
Se às sete tenho de saltar do sonho para a condução
E da poesia para o asfalto.

Que fazer se as depressões não resultam em poemas?
E sim em bulas e divãs
Se as lágrimas são objeto de estudo
E as canetas, seringas.

Que fazer se as poesias não são nem sequer lidas?
Se os poetas esvaziam seus blocos dos bolsos
Jogam fora as dores
As paixões
Anestesiam-se.

Que faria eu, se escrevesse um poema?
Sentiria tudo de novo?
Ou escreveria sobre o que me impede de sentir?

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A estratégia


O urubu sobrevoa a carniça.
O cheiro fétido penetra em seus sentidos, já podres.
Quanto mais sujo, estragado, sórdido, obsceno,
Mais suculenta é a caçada.
A estratégia é, então, cuidadosamente traçada
E o mergulho, absurdamente preciso
Mesmo em face dos companheiros do bando,
Do pacto, do compromisso.
Nem baratas, nem ratos, nem bichos escrotos
Ao som da infausta e pavorosa batida
A estratégia é mergulhar na carne
No sangue velho e apodrecido
E arrancar dele
Tudo o que um dia já foi vida.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012




Mas quando chega o tempo da invernada
No Sertão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim não passa fome
Os burrego que nasce na baixada
Carcará pega, mata e come.

sábado, 18 de agosto de 2012

Rafael - "São Jorge e o Dragão"

Melhor do que se abster de quaisquer escudos e proteções,
é apegar-se a todos
controversos, incoerentes,
místicos,
irracionalmente.

Para arquivar: Essa conversa não é sobre você

Querido estudante branco, de classe média, que faz cursinho pré-vestibular particular: eu sei que é difícil quando alguém nos faz enxergar nossos próprios privilégios, mas deixa eu tentar mais uma vez.

Eu (e mais uma penca de gente, me arrisco a dizer) não me importo com o quão “difícil” será para você entrar naquele curso de medicina mega concorrido com o qual você sonha, porque, simplesmente, esta conversa não é sobre você.

Eu sei que praticamente todas as conversas deste mundo são sobre você e você está acostumado com isso, então deve ser um baque não ser o centro das atenções. Mas, seja forte! É verdade: nós não estamos falando sobre você.

Quando você chora pelo sonho que agora parece mais distante de se realizar, suas lágrimas não me comovem. Porque o que me comove são as lágrimas daqueles que nascem e crescem sem qualquer perspectiva para alimentar o mesmo sonho que você. É sobre essas pessoas que estamos falando e não sobre você.

Quando você esperneia pelos mil reais gastos todos os meses com a mensalidade do seu cursinho e que agora se revelam “inúteis”, eu não me comovo. Porque o que me comove são as milhares de famílias inteiras que se sustentam durante um mês com metade da quantia gasta em uma dessas mensalidades. É sobre essas pessoas que estamos falando, não sobre você.

Quando você argumenta que, na verdade, seus pais só pagam seu cursinho porque trabalham muito ou porque você ganhou um desconto pelas boas notas que tira, eu não me comovo. Porque o que me comove são as pessoas realmente pobres, que mesmo trabalhando muito mais do que os seus pais, ainda assim não podem dispor de dinheiro nem para comprar material escolar para os filhos, quem dirá uma mensalidade escolar por mais barata que seja. É sobre essas pessoas que estamos falando, não sobre você.

Quando você muito benevolente até admite que alunos pobres tenham alguma vantagem, mas acredita ser racismo conceder cotas para negros ou outros grupos étnicos eusa até os dois negros que você conhecem que conseguiram entrar numa universidade pública sem as cotas, como exemplo de que a questão é puramente econômica e não racial, eu não me comovo. Na verdade, eu sinto uma leve vontade de desistir da raça humana, eu confesso, mas só para manter o estilo do texto eu preciso dizer que o que me comove é olhar para o restante da sala de aula onde esses dois negros que você citou estudam e ver que os outros 48 alunos são brancos. E olhar para as estatísticas que mostram a composição étnica da população brasileira e contatar a abissal diferença dos números. É sobre os negros que não estão nas universidades que estamos falando, não sobre você ou seus amigos.

Se a coisa está tão ruim, que tal propormos uma coisa: troque de lugar com algum aluno de escola pública. Já que não é possível trocar a cor da sua pele, pague, pelo menos, a mensalidade para que ele estude na sua escola e se mude para a dele. Ou, seja a cobaia da sua própria teoria. Já que você acredita que a única ação que deveria ser proposta é melhorar a educação básica: peça para o seu pai investir o dinheiro dele em alguma escola, entre nela gratuitamente junto com alguns outros alunos, estude nela durante 12 anos e então volte a tentar o vestibular. Ah, você não pode esperar tanto tempo? Então, porque os negros e pobres podem esperar até mais, já que todos sabemos que o problema da má qualidade da educação básica no Brasil não é algo que pode ser resolvido de ontem pra hoje?

Então, por favor, reconheça o seu privilégio branco e classe média e tire ele do caminho, porque essa conversa não é sobre você. Já existem espaços demais no mundo que têm a sua figura como estrela principal, já passou da hora de mais alguém nesse mundo brilhar.